
Finanças Embutidas transformam o B2B, mas desafios permanecem no meio corporativo
A crescente adoção do conceito conhecido como "embedded finance" — finanças integradas diretamente nos sistemas empresariais — está redesenhando as transações entre empresas (B2B). Ao substituir etapas manuais como emissão de boletos, troca de e-mails e conciliações fragmentadas por processos automáticos dentro dos próprios softwares de gestão, esse movimento promete eficiência e agilidade. Mas até que ponto o mercado corporativo já está preparado para acolher essas transformações que impactam fluxo de caixa e relacionamento financeiro? Quais barreiras ainda limitam a digitalização plena no universo B2B?
Contexto — cenário, players e histórico breve
Enquanto os pagamentos digitais avançaram rapidamente na relação entre varejo e consumidor final (B2C), o Brasil ainda vive impasses importantes na cadeia B2B, envolvendo indústrias, agronegócio e atacado. Segundo Karine Oliveira, sócia do FAS Advogados, processos como faturamento manual e boletos convencionais dominam a movimentação de trilhões de reais, mantendo a operação ancorada em mecanismos analógicos. Fintechs, bancos tradicionais e desenvolvedores de ERP (Enterprise Resource Planning) são os protagonistas das iniciativas para incorporar soluções financeiras ao fluxo operacional.
De acordo com Fabio Montanari, CEO da Montanari Tecnologia, a resistência dos meios tradicionais convive com a necessidade de controle rigoroso em setores complexos, como eventos corporativos, onde seus sistemas geram cartões virtuais parametrizados no próprio ambiente do software, promovendo integração entre departamentos de compra, aprovação e pagamento.
O que mudou — fatos confirmados
A transformação principal repousa na capacidade de os ERPs não só registrar as operações comerciais, mas também gerenciar os pagamentos, antecipação de recebíveis e concessão de crédito baseados nas movimentações já documentadas no sistema. Isso cria uma dinâmica que pode melhorar o capital de giro para compradores e acelerar o recebimento para fornecedores. Plataformas integradas permitem que o pagamento seja consequência natural das aprovações, eliminando etapas manuais que demandam equipes dedicadas para conciliações e ajustes.
As instituições financeiras continuam responsáveis pela infraestrutura e emissão de meios de pagamento, mas tecnologias como cartões virtuais adicionam uma camada de governança e customização às regras internas de cada empresa.
Impactos para negócios
Para gestores, a adoção do embedded finance em seus sistemas representa uma possibilidade concreta de ganho em eficiência operacional, redução de erros e transparência nos processos financeiros. Empresas de médio porte, em especial, poderão escalar operações sem ampliar proporcionalmente o custo com equipes financeiras, ganhando competitividade.
Entretanto, essa integração também demanda maturidade na governança de dados, na segurança cibernética e na articulação entre setores. As soluções financeiras embutidas podem alterar a dinâmica tradicional do capital de giro, impactando relações contratuais e fluxos de caixa previstos, o que exige uma nova visão estratégica por parte dos executivos.
Perguntas em aberto
Apesar do avanço, persistem dúvidas importantes: qual o estágio real de adoção do embedded finance nas médias empresas brasileiras? Até que ponto os sistemas legados e as equipes internas conseguem acompanhar essa revolução? Como as empresas devem equilibrar o investimento em tecnologia com o retorno esperado dos ganhos operacionais? Além disso, a dependência das instituições financeiras e das bandeiras de cartão para emissão e liquidação representa risco para a autonomia das soluções integradas?
O que observar
Nos próximos trimestres, será fundamental monitorar indicadores como o aumento da automação em processos de pagamento B2B, a quantidade de ERPs que incorporam serviços financeiros e a resposta do mercado às ofertas de antecipação de recebíveis via sistemas integrados. A evolução das regulamentações sobre fintechs e a segurança dos dados financeiros também serão pontos decisivos. Por fim, empresas e consultorias precisam intensificar o diálogo para entender onde o embedded finance pode, de fato, gerar valor sem criar complexidade adicional.
Essas escolhas definirão não apenas a eficiência financeira das organizações, mas também sua capacidade de competir em um ambiente cada vez mais digital e conectado.
Fonte: Valor Globo