
SaaSholic triplica fundo e reforça inovação na mensuração de valor em software B2B
A SaaSholic finalizou a captação de seu terceiro fundo, que alcançou US$ 30 milhões, um crescimento de três vezes em relação ao veículo anterior. A novidade não ficou apenas no volume, mas na entrada da Spectra, uma das maiores investidoras institucionais em venture capital do Brasil, como cotista. Além disso, a gestora implementou um método próprio para avaliar financeiramente sua carteira, movendo-se para além dos tradicionais valuations baseados no último preço pago. Como essa mudança influencia o mercado brasileiro de software B2B e o modo como investidores ponderam riscos e oportunidades?
Contexto — cenário, players e histórico breve
Fundada em 2019 por William Cordeiro, Gustavo Souza e Diego Gomes, a SaaSholic é uma gestora especializada em investimentos em software B2B na América Latina. Em seus dois primeiros fundos, a SaaSholic investiu em empresas renomadas como Conta Simples, Jusbrasil, Clicksign e Salve. O mercado brasileiro de SaaS vem apresentando desafios, especialmente diante das transformações trazidas pela inteligência artificial, que colocam sob revisão modelos tradicionais de software.
Até o último fundo, a avaliação dos ativos costuma se basear na última rodada de investimentos para definir o valor de mercado das empresas. Essa abordagem, embora comum, reflete essencialmente o valor no momento do investimento e pode não capturar a performance atual ou o potencial futuro das startups.
O que mudou — fatos confirmados, sem especulação apresentada como certeza
O novo fundo de US$ 30 milhões da SaaSholic contou com participação fundamental da Spectra, que aportou US$ 7 milhões como o primeiro investidor institucional na gestora. Também entrou como cotista estratégico a Evertec, empresa listada nos EUA que recentemente adquiriu a Sinqia.
Para aumentar a transparência e a precisão da avaliação das startups da carteira, a SaaSholic desenvolveu a métrica "cARR" (receita anual recorrente ponderada pela participação). Essa métrica permite uma medição mais dinâmica da evolução econômica das empresas, aplicando múltiplos de receita para estimar o valor da carteira, em substituição ou complemento ao valuation tradicional.
Essa mudança foi decisiva para a atração da Spectra, que ressaltou o aprofundamento no acompanhamento mensal da performance das investidas, observando crescimento, capital efficiency e rentabilidade.
Impactos para negócios — consequências para empresas, gestores e mercado
Para gestores de fundos e investidores, a adoção de métricas alternativas como o cARR oferece maior granularidade e agilidade no monitoramento do desempenho das startups. Isso potencialmente aumenta a qualidade das decisões de investimento e amplia a confiança na avaliação contínua do portfólio.
Empresas ligadas a software B2B, por sua vez, podem se beneficiar de um olhar mais focado em crescimento e eficiência operacional, ao invés de depender exclusivamente da valorização pontual em rodadas de investimento. Isso abre espaço para modelos de negócios que demonstrem consistência financeira e estratégias de longo prazo alinhadas à geração real de receita.
Por outro lado, a entrada da Spectra e Evertec consolida a SaaSholic como uma gestora em ascensão, potencialmente influenciando o mercado latino-americano de venture capital e atraindo mais institucionais a olhar para o segmento de SaaS com métricas mais sofisticadas.
Perguntas em aberto — incertezas, riscos e o que ainda não está claro
Resta ainda observar como o mercado mais amplo absorverá essa nova métrica de avaliação e se outras gestoras seguirão o exemplo da SaaSholic. A métrica cARR, embora inovadora, não é isenta de limitações, especialmente porque depende de múltiplos de receita que podem variar amplamente entre setores.
Além disso, o efeito da inteligência artificial sobre o segmento SaaS pode criar zonas de impacto diferenciado, com algumas verticais sofrendo mudanças mais bruscas que outras, o que pode afetar a consistência da métrica ao longo do tempo.
Outro desafio está na escalabilidade desse método, caso a carteira cresça rapidamente ou tenha maior diversidade de modelos de negócio, o que pode demandar ajustes na metodologia para garantir a representatividade e a confiabilidade das avaliações.
O que observar — próximos passos e sinais a acompanhar
Será fundamental monitorar a divulgação dos resultados trimestrais e a atualização da avaliação do portfólio da SaaSholic para entender a eficácia do cARR na prática. A movimentação da Spectra e de outros investidores institucionais no mercado latino de software pode indicar um amadurecimento da regulação e da governança para investimentos em startups.
Adicionalmente, a trajetória da Evertec, especialmente no cruzamento entre mercado de capitais e tecnologia, deve ser observada como indicador da crescente atuação de players estratégicos na estruturação de fundos e investimentos em tecnologia.
Por fim, o posicionamento das startups do portfólio diante das transformações impulsionadas pela inteligência artificial será decisivo para redefinir a avaliação de riscos e oportunidades nesse setor confrontado por rápidas mudanças tecnológicas.
Fonte: Valor Globo